Infraestrutura Crítica4 min de leituraNota
Espaço é infraestrutura crítica: o que um webinário sobre autonomia nacional diz a quem assina o risco
Participei do 6º Webinário Espaço em Pauta, do GSI/PR, sobre o espaço como elemento de autonomia estratégica nacional, representando a Telebras. A lente da Escola Superior de Defesa ajuda a explicar por que isso é assunto de alta administração, e não só de engenharia.

Publicado originalmente como nota no LinkedIn, em setembro de 2026. Este texto desenvolve a nota.
Participei, em 3 de setembro de 2026, do 6º Webinário Espaço em Pauta – Diálogos, com o tema “Espaço como Elemento para Autonomia Estratégica e Soberania Nacional”, promovido pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, por meio da Secretaria de Coordenação de Assuntos Espaciais. Estive lá representando a Telebras e também como egresso da Escola Superior de Defesa, que apoiou institucionalmente o evento.
Duas falas estruturaram o encontro: “O uso do espaço para a proteção do Brasil”, do Tenente-Brigadeiro do Ar Sergio Barros de Oliveira, Comandante de Atividades Espaciais da Força Aérea Brasileira (COES/FAB), e “Capacidades espaciais do Brasil: desafios e perspectivas”, de Marco Antonio Chamon, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB).
A série Espaço em Pauta reúne, na mesma sala, atores que nem sempre participam da mesma conversa: a Agência Espacial Brasileira, o Comando de Atividades Espaciais da Aeronáutica, a base industrial de defesa e a comunidade acadêmica. O objetivo é fortalecer o Programa Espacial Brasileiro e discutir o setor espacial como componente da autonomia tecnológica e estratégica do país.
Este texto não é um relato do webinário. É a leitura que fiz dele — e, principalmente, o que essa leitura me levou a investigar depois.
A lente que trago da Escola Superior de Defesa
Minha passagem pela Escola Superior de Defesa me levou a olhar esse debate por uma lente que vai além da dimensão estritamente técnica. A formação na ESD enfatiza a relação entre Defesa Nacional, Segurança e Desenvolvimento, e foi a partir dessa perspectiva que passei a organizar algumas das questões levantadas pelo webinário.
Para mim, não basta perguntar como proteger uma capacidade estratégica. É preciso compreender também de que maneira ela sustenta o funcionamento do Estado, a atividade econômica e a autonomia de decisão do país.
Essa perspectiva muda a conversa sobre o espaço.
Nesta década, de fato, os satélites de de ser vistos apenas como ativos tecnológicos ou instrumentos militares e passam a ser percebidos também como componentes de infraestruturas das quais dependem atividades essenciais: comunicações, navegação, sincronização de tempo, observação da Terra, meteorologia, monitoramento de fronteiras, sistemas financeiros, redes de energia e uma parcela crescente da economia digital.
É nessa interseção que o tema espacial deixa de interessar apenas à engenharia e passa a interessar também a quem decide sobre estratégia, continuidade, investimento e risco.
A partir dessa perspectiva, algumas perguntas se tornam inevitáveis:
De quais capacidades espaciais dependemos? Quem as controla? O que acontece quando elas ficam indisponíveis? E qual grau de dependência externa estamos dispostos a aceitar?
São perguntas sobre autonomia nacional, mas também sobre gestão de riscos.
Um país que considera o espaço elemento de sua autonomia estratégica precisa conhecer as dependências espaciais de suas infraestruturas essenciais. E a relação funciona nos dois sentidos: capacidades nacionais aumentam a margem de decisão do país, enquanto infraestruturas resilientes reduzem a vulnerabilidade associada a dependências que não podem ser eliminadas.
Nem toda dependência externa é, por definição, um problema. O problema aparece quando ela é desconhecida, concentrada, não governada ou difícil de substituir.
Segurança, Desenvolvimento e Defesa não existem em compartimentos independentes. Uma decisão aparentemente técnica sobre telecomunicações, energia, posicionamento ou sincronização pode produzir consequências estratégicas.
E essas perguntas não terminam no Estado. Elas descem para dentro de cada organização que opera uma infraestrutura, um serviço ou uma atividade essencial.
Minha contribuição
Duas dessas dependências me chamaram particularmente a atenção depois do webinário. Cada uma acabou dando origem a um texto.
Órbita baixa, média e geoestacionária: o que mudou e por que o GEO não morreu parte de uma aparente contradição: se existem hoje milhares de satélites em órbita baixa e cobertura praticamente global, por que um país ainda teria interesse em possuir capacidade geoestacionária própria?
A resposta exige separar cobertura de controle. O texto compara as diferentes órbitas pelo problema que cada uma resolve, mostra por que uma infraestrutura terrestre continua podendo depender do segmento espacial e discute uma questão que vai além da escolha tecnológica: onde estão os pontos de controle de uma capacidade considerada estratégica?
Ter acesso a um serviço e controlar a infraestrutura que o presta são coisas diferentes.
A hora é brasileira, o sinal é estrangeiro parte de outra dependência, muito menos visível. O Brasil possui sua própria hora legal e mantém padrões nacionais de tempo no Observatório Nacional. Ao mesmo tempo, sistemas essenciais precisam manter seus relógios sincronizados com elevada precisão — e parte dessa sincronização pode depender de sinais provenientes de constelações de navegação por satélite controladas fora do país.
O texto percorre exigências existentes no sistema financeiro e no setor elétrico, os riscos associados à indisponibilidade ou interferência desses sinais e as estratégias adotadas para reduzir essa vulnerabilidade.
Aqui, a questão deixa de ser simplesmente quem fornece o sinal. Passa a ser: o que continua funcionando quando ele desaparece?
Os dois textos não correspondem, de maneira estanque, às quatro perguntas anteriores. Eles as atravessam por caminhos diferentes.
Um discute principalmente arquitetura, capacidade e controle.
O outro discute dependência, continuidade e resiliência.
Ambos partem, porém, da mesma constatação que ficou do webinário: a dependência do espaço não é um cenário futuro. Ela já está incorporada a atividades essenciais da sociedade e da economia, embora nem sempre seja visível para quem decide sobre risco, continuidade e estratégia.
As opiniões publicadas aqui são pessoais e não representam a Telebras, a CelgPar, o Banese nem qualquer outra organização em que atuo ou atuei. Nada aqui é recomendação de investimento.
